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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

psicologia.

Oi galera.
Aí está a matéria prometida.
Boa leitura.
Em 1958, Geoges Canguilhem edita um pequeno texto que era leitura obrigatória para nós, estudantes de Psicologia, no início da década de 70. É pena que
esse texto esteja hoje tantas vezes esquecido dos cursos de Psicologia e é impressionante, para mim, a sua ignorância entre os alunos quando o cito eventualmente.
Chama-se “O que é Psicologia?”
[i]
[1]. 

Canguilhem tentava, então, um levantamento cuidadoso das várias correntes filosóficas que teriam originado as várias escolas psicológicas, procurando, naquelas,
algumas semelhanças com estas. 

Jacques Lacan (1966, p. 874) retoma esse texto de Canguilhem no que tange a seu chiste: um dos caminhos que saía da Faculdade de Psicologia, em Paris, partia
do Panteão e levava à Chefatura de Polícia. Será a isso que tende a Psicologia? 

A verdade é que “Os discursos de psicologia no século XIX no Brasil”, dissertação de mestrado defendida em 1981, assume para si, ao pé da letra, verificar,
com Canguilhem e outros autores, para onde tende a Psicologia, só que nas origens do movimento que levou  a considerar “o lugar científico da disciplina
psicológica como ‘legítimo’” (DELEULE, 1969). Trata-se de uma pesquisa que verifica a história da psicologia no Brasil. 

O estudo tenta acompanhar o vínculo desse saber in statu nascendi com “as tendências dominantes, tanto no que diz respeito a diferentes racionalidades de
uma época, quanto no que diz respeito ao jogo político, econômico e social no qual esse saber se insere ou não” (ALBERTI, 1981, p. 4). É, na realidade,
no estudo dos discursos que essas tendências se mostram e onde fica visível a não unidade, impondo-se, como dizia Foucault em 1972, a “análise minuciosa
das decalagens sucessivas”.  

No final do século XIX, exatamente em 1900, é publicada a tese “Duração dos atos psíquicos elementares nos alienados”, inaugurando toda uma nova relação
da Psicologia com a medição, a discriminação, o estudo dos atos que, vistos como comportamentos, serão tidos como objetos de uma ciência empírica. Já desde
as últimas décadas do século XIX é possível perceber uma nova vetorialização: surgem propostas para “estatísticas morais” (1880), estudam-se “centros corticais
psicológicos” (1881), fala-se da “psicologia da percepção e das representações” (1890), da “hereditariedade psicológica” (1892), entre outros. Herdeira
do positivismo que toma conta da medicina  a partir da terceira década do século XIX, essa psicologia destitui qualquer integridade ou unidade no homem
e desenvolve-se a partir da idéia de organismo, um conjunto de funções, leis e órgãos - cabeça, cérebro, como foi a concepção frenológica
[ii]
[2]. O cérebro da frenologia já não é mais substância única e individual, mas parte da organização reflexa. Os atos psíquicos são estudados também separadamente,
não-autônomos porque dependentes totalmente de um estímulo externo. 

O que é medido, através do que o outro pode perceber, são os produtos de um funcionamento - interno -, aquilo que não se vê, o que escapa à consciência
em si do indivíduo que está sendo examinado. Esse indivíduo já não tem mais consciência, é alienado, é um ser que não tem com o que se impor, como indivíduo.
Ele é diferente dos outros indivíduos, mas essa diferença se mede, e se mede somente em graus. A discriminação entre as pessoas é feita em graus de alienação
ou não, mas todos são passíveis de perder a consciência ou a autonomia, que lhes permitiria um autoconhecimento. Já não existe mais a idéia de um autoconhecimento;
quem conhece é o outro, o mestre que detém o saber, que sabe mais do que o próprio sujeito que está sendo pesquisado. Esse saber, por sua vez, é legitimado
porque científico. E cientistas são normalmente os médicos, cuja formação acadêmica sofre clara influência dos estudos realizados na Europa, para onde
vão, financeiramente sustentados pelos grandes latifúndios da família, retornando ao Brasil imbuídos de um monte de “idéias novas”, como se diz na época.
Trata-se do liberalismo, do cientificismo e dos avanços da medicina que crescem numa Europa sob o jugo da industrialização. 

Mas há outros discursos de psicologia. Verdadeiros tratados que descreviam a alma e seu conhecimento, ou mesmo a consciência humana. Estes tratavam do saber
sobre a “psyché”. Uma psique cuja origem era muito antiga, da época em que o saber grego havia sido assimilado à defesa dos dogmas cristãos. Herança de
diferentes correntes filosóficas, esses discursos falavam numa alma substancial e soberana, comprometida com uma racionalidade das causas primeiras e teológicas.
Era um discurso sobre uma alma voluntária e una, descendente de uma idéia única da alma. 

Ao longo do século XIX, os saberes psicológicos se servem desses dois discursos para um novo campo de domínio, que acaba por fazer deles servos e palco
de dois tipos de poder. O primeiro, o poder soberano
[iii]
[3], que supõe um conhecimento a serviço de um poder uno, vindo de cima, e que nos parece estar, na época, nas mãos do poder rural, representado, no campo
do saber, pela Igreja. O segundo, o poder disciplinar
[iv]
[4], cada vez mais normatizador, formando a rede de poderes cuja vertente vigilante encontra seu paradigma no panóptico de Bentham, desenvolvendo-se, aqui,
através da medicalização da sociedade. Por um lado, domínio de um conhecimento não-médico, filosófico e, por outro, servindo à medicina mesma que se desenvolve,
sobremaneira, no século XIX. 

É interessante observar a maneira pela qual os saberes psicológicos se tornaram palco de um conflito entre esses poderes; de um lado, sustentado pela filosofia
- vinculada ao poder ainda soberano; de outro, pela medicina, que procura angariar forças e conhecimentos suficientes para fazer ruir as antigas formas
de dominação. Um dos contextos em que esse conflito foi declarado abertamente chamava-se O Crepúsculo, uma revista baiana na qual, entre 1845 e 1846, dois
médicos antagonizavam dois ‘filósofos’, fazendo, inclusive, um convite a um duelo, por discordâncias sobre as maneiras psicológicas de ver (ALBERTI, 1981,
p. 138).

Levantei a hipótese de que foi a partir do conflito de poderes que se criaram as condições para os diferentes discursos de psicologia, conflito esse que,
no fundo, no fundo, como nos ensinou Marx, implica a economia. No caso, trata-se da passagem histórica em que foi preciso, cada vez mais, levar em conta
- malgrado as resistências - o capitalismo internacional nascente. Ia levar ainda algum tempo para que a Psicologia se tornasse agente de discurso; durante
o século XIX ela foi, basicamente, instrumento para o agenciamento de outros. 

Pudemos além disso estudar, em outro contexto
[v]
[5], que essa origem dos discursos de psicologia lança as bases, justamente, para a importante ação da Psicologia, já nas primeiras décadas desse século,
junto ao Direito e à Pedagogia. Em ambos os casos, a Psicologia irá sustentar um discurso segregador, profilático e normatizador. Lê-se, por exemplo, em
1932: “A primeira condição, portanto, para que possa a nossa Escola Normal constituir um centro de pesquisas pedagógicas é que aí se ensine e se aprenda
de fato a psicologia experimental” (SERRANO, in ALBERTI, 1984, p.76). Na realidade, observa-se que a “psicologia experimental” assume uma função de ponta
no momento em que é desidentificada da psicologia da moral e da ética. Esta, “antiga”, fica atrelada a uma filosofia da consciência que dá autonomia ao
indivíduo. As questões éticas não interessam mais ao psicólogo do início do século XX, pois ele identifica a ética à “antiga” psicologia, à qual contrapõe
o boom cientificista. Este não leva mais em conta a integridade do ser humano que pode pensar, julgar, ponderar, através de sua experiência de vida: “...
uma disciplina de ordem psicológica. Ao invés de ciência de raciocínio e experiência, ciência de observação e experimentação” (idem). Podemos dizer então
que, com o início do século XX, a psicologia tende (para respondermos a Canguilhem) para a observação e a experimentação, para o esquadrinhamento do indivíduo
à sua revelia, e a subseqüente “formação da personalidade do aluno”, “de seu caráter” (idem). De maneira que podemos observar claramente, conforme dito
acima, o discurso da desautorização subjetiva, da destituição de toda integridade, em que se entende o “aluno”, o “menor”, o “delinqüente”, como organismo
- conjunto de órgãos cientificamente estudados e reintegrados. Não podemos deixar de pensar que esse discurso vem sustentar as práticas atuais, em que
se gera uma criança, por exemplo, com o único intuito de fazê-la doadora de órgãos para outra com câncer
[vi]
[6]. “O mineiro só é solidário no câncer”, já retomava Nelson Rodrigues de Otto Lara Rezende, onde o câncer é metáfora para o desumano. Depois que a “psicologia
experimental” - ponho aspas pois se entendia, sob esse título, a psicologia “científica”, ou seja, a que derrubava, justamente, a autonomia da alma - pôde
ser amplamente assimilada, a própria psicanálise foi importada exatamente com esse mesmo fim, o de adaptar e esquadrinhar o ser humano, na tentativa de
agir sobre seus “instintos inconscientes”, tomados à parte, para elevá-los disciplinadamente a condutas regradas pela ordem vigente. Somente na medida
em que o discurso da ciência pode renegar, totalmente, a subjetividade, é que a técnica tem seu caminho aberto para exercer-se tão plenamente. O humanismo
passa a ser um engano para o cientista, daí não haver lugar para o sujeito no discurso em que a técnica se impõe à ciência. 

Por ora, voltemos ao século XIX. 

Com o recorte na história universal que fiz, atendo-me, com exclusividade, ao Brasil, pude efetuar uma redução dos dados que nos facilita, hoje, uma avaliação.
A verdade é que o século XIX, em seu surgimento, é palco de grande efervescência intelectual. Isso porque, finalmente, no final do século XVIII, Pombal
obriga à ampla reforma cultural em Portugal, promovendo a retirada do aristotelismo das universidades, a transformação da Inquisição portuguesa - que deixa
de ser instrumento de poder religioso para servir, agora, à Coroa - e a perseguição aos jesuítas. Os intelectuais enganam-se, então, julgando-se livres
de uma série de dogmas que impediam um distanciamento do tomismo, e essa aparente liberdade cultural procura assumir as transformações culturais da Reforma
que, na Europa não portuguesa, se tinha iniciado há já três séculos.

O século XIX, com a chegada de D. João VI, abre a Universidade do Brasil, e a intelectualidade tem acesso a esse “monte de idéias novas” que desestabilizam
completamente as certezas escolásticas nas quais, até então, todos se banhavam. O exercício da dúvida, três séculos depois de Descartes, no entanto, não
levou ninguém a duvidar de sua existência, pois, por mais liberais e científicas que fossem aquelas “idéias novas”, em matéria de crença o intelectual
brasileiro continuava com um pé na religião católica, resistindo, assim, também à colonização pela ética protestante do lucro individual (MERCADANTE, in
ALBERTI, 1984, p. 18). Para isso contribuía, evidentemente, a ainda predominante classe rural e escravagista, cujos lucros somente começaram a vacilar
a partir de meados do século, com as cada vez mais freqüentes investidas avassaladoras do capital internacional, sobretudo o inglês.

TRÊS TEMPOS  

Com o intuito de resumir o encontrado, continuo sustentando, depois de dezoito anos passados de minha pesquisa, que podemos identificar nas teses psicológicas
sobre a alma - cujo primeiro exemplar são as “Teses filosóficas sobre a psicologia do homem as quais se propõe defender em público no Imperial Seminário
de São Joaquim” (de 1830) - uma das veias discursivas, a que chamei de filosófica, e que tende a outorgar a cada indivíduo uma autonomia através da qual
irá atuar no mundo. 

Três tempos para as teses psicológicas sobre a alma:

1) 1)  O tempo da escolástica. Trata-se de um tempo lógico, pois inexistente de fato, já que não há teses psicológicas escritas antes da autorização portuguesa
de uma imprensa brasileira. Trata-se de uma alma com conotação divina, que atribui a cada ente um poder e uma identidade interior, semelhante a Deus. É
a alma como substância, racional, que permite a formação de idéias, vinculada a uma teodicéia;

2) 2)  O tempo do ecletismo. A alma se diferenciou do corpo, deixa de ser uma substância, pedaço em analogia com Deus, para ser constituída de reflexão
e subjetividade. Como tal, a alma pode ser entendida como consciência por excelência, instância do conhecimento, do autoconhecimento, ponto de partida
para a conceituação do eu. “Consciência”, “eu”, “alma”, “espírito”, além da antiga palavra “substância”, são termos que estes nossos discursos de psicologia
vão utilizar quase indiscriminadamente ( ALBERTI, 1981, p. 41). De um lado, as funções do corpo; de outro, as funções da alma. Ao contrário da consciência
moral tomista - determinada pela infalibilidade da alma -, o eu passa a ter condições de escolha entre as possíveis ações e, a partir de seu agir, poderá
ser julgado por outros eus. No entanto, por mais que escolha, essa alma só se ocupa do mundo das idéias. A distância dessa consciência com relação à política
e à economia é crassa, pois os intelectuais que a defendem ainda se sustentam na ordem oligárquica da economia cafeeira e do poder soberano. É só num segundo
momento, em 1863, com o trabalho do Padre Moniz, que essa posição é política. Aqui assistimos a um recrudescimento da substância, acima de qualquer coisa
sensível, figurando a psicologia no conhecimento somente enquanto possibilidade de análise da própria idéia de substância. Reação clara e evidente, e católica,
ao terceiro tempo, que ataca, com força cada vez maior, a racionalidade religioso-filosófica, a partir da racionalidade empírica;

3) 3)  O tempo do organismo - fim da alma. A partir das teses frenológicas, a alma, apesar de ainda espiritual e inacessível, é vinculada a uma série de
conceitos que procuram objetivá-la progressivamente. Objetivá-la no sentido de fazer dela objeto de ciência, a ser estudada pelos “cientistas”, tirando-a
das mãos de Deus. Assim como tudo no Brasil, até mesmo a frenologia chegou com atraso - apenas em 1838, na Tese da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro,
de Domingos Marinho de Azevedo Americano. Este já não propõe um estudo da alma - por definição, espiritual e separada -, mas um estudo do homem como ser
organizado e semelhante, portanto, a outros seres que se organizam anatômica, química e botanicamente. Surge a fisiologia e sua associação com o cérebro,
onde se localizam, definitivamente, as propriedades e funções da alma. O campo da fisiologia é o campo da vida, na medida em que, até então, a medicina
só pesquisava cadáveres. Conhecer a vida, o corpo vivo e tudo o que se pode fazer com ele: suprir uma função em falta, aumentar ou diminuir uma função
irregular e, finalmente, modificá-lo. Transformar o homem em máquina produtora, eis, no fundo, o que sustenta o avanço desse tempo. “Se o pai e os jesuítas
asseguravam as prerrogativas do saber para legitimar o latifúndio, o cientista assegura as prerrogativas do saber para legitimar o capital” (ALBERTI, 1981,
p. 75). Construída sobre a idéia do funcionamento e das relações; trabalhando com conceitos como força, instinto, estimulação, movimento; instrumentalizando
o ser de qualquer espécie para o fim comum - a vida -, a fisiologia não se baseia mais numa discriminação de seres, mas funda-se numa discriminação de
fenômenos. O ser vivo é produto de funções de partes, produto da relação entre o físico, o psíquico e o ambiental, não mais o indivíduo autônomo. O homem
não é mais homem, mas ser vivo. Daí, por exemplo, o antigo pecado carnal - onde a alma, enquanto senhora de si mesma, perdia, por alguns momentos de fraqueza,
a sua liderança sobre o corpo - se transforma em falha na organização. Estamos longe de uma acepção da vida em dialética com a morte. A organização fisiológica
exclui a morte. A organização funciona, ou não. Quando se reduz o homem a um ser vivo, a morte passa a ser da ordem do insuportável e, portanto, do foracluído
do discurso. Não é à toa que hoje, quando morre um ente muito próximo, a psiquiatrização chega ao cúmulo de medicar o luto. 

De início frenológico, o sistema anátomo-fisiológico é transportado aos poucos para as outras áreas médicas, “organizando” a psiquiatria e se ligando aos
primeiros conceitos de uma pretensa psicologia científica que incide sobre a personalidade, o caráter, a motilidade, a sensibilidade, a memória, o comportamento,
etc.... Associada às máximas do positivismo brasileiro de meados do século XIX, que começa declarando não reconhecer direitos de espécie alguma, mas exige
dos próprios políticos o exercício de funções determinadas, com condições precisas, “evidenciadas pelo estudo científico da humanidade” (LEMOS e MENDES
in ALBERTI, 1981, p. 86), essa psicologia ingressa no debate da moralização. É assim que a sensação, entendida originalmente como fato psicológico mais
simples, transforma-se, nesse terceiro tempo - o do organismo - em fato psicológico mais fundamental. Com isso, surge um saber do corpo, que inicialmente
instrui a alma (como, por exemplo, no texto de França, 1854), passando-lhe “recados”. Anteriormente, a natureza da sensação e a própria sensação existiam
somente a partir da alma; a natureza era determinada internamente à alma, após a percepção e o conhecimento da sensação. Agora, a sensação é um mecanismo
orgânico, desinvestindo-se a função da alma, pois ela já não conhece intrinsecamente. De um lado, os que sugerem  que “o fato psicológico o mais simples,
a sensação, pressupõe a sensibilidade e atividade”, o que os leva a dizer que o amor, a amizade, o ódio, o entusiasmo, a dor “são sentimentos que supõem
o exercício de muitas faculdades da inteligência” (ROCHA [1846] in ALBERTI, 1981, p. 102); de outro lado, os que retomam essas mesmas coisas - o amor,
a amizade... - para dizer que elas “nascem das sensações e são portanto mais ou menos aproximadamente dependentes do organismo” (OLIVEIRA [1846] in ALBERTI,
idem, p. 101). Se originalmente a sensação se liga às faculdades da inteligência, ela agora se liga ao organismo; se originalmente o autoconhecimento era
o trabalho psíquico por excelência, agora é o processo psíquico instruído organicamente; se originalmente a reflexão se exercia a nível do autoconhecimento,
agora o arco reflexo serve ao conhecimento técnico que se quer ter sobre um indivíduo com falhas de funcionamento. A respeito disso pude concluir, em 1981,
que “o ‘processo psíquico’, por definição, já é um processo fisiológico e pode, portanto, facilmente transformar e explicar, através de um mecanismo quase
antropofágico, a ‘completa fase de reflexão’ como idêntica ao simples reflexo, reduzindo tudo a ações nervosas passíveis de serem modificadas, primeiro
em laboratórios e depois, no cotidiano - as escolas, a família, as psicoterapias” (ALBERTI, idem, p. 105).

CONCLUSÃO, NO ACASO DO SÉCULO XX  

Pudemos verificar de que maneira operou a cientifização da psicologia ao longo do século XIX. Na realidade, podemos fazer, justamente da psicologia, um
exemplo do que foi esse movimento que levou Lacan, desde 1966, a dizer que a ciência exclui, foraclui o sujeito. Para se afirmar como ciência, a psicologia
teve que renegar seu passado, foracluindo o sujeito que, originalmente, era sua razão de ser. 

A questão que fica é a que interroga essa tendência, ou seja: será que foi para se afirmar como ciência? Ou foi porque a psicologia contemporânea já nasceu
no bojo de uma capitalização do saber? Passando a identificar o psicologista como aquele que sabe sobre o outro, este outro destituído de saber, fica a
pergunta com relação ao agenciamento do discurso quando é o psicólogo que se institui no lugar da mestria - que é, na realidade, seu lugar em toda a primeira
metade desse século (MIRANDA ROSA, 1984). Um quarto de volta nos discursos
[vii]
[7], encontramos o discurso universitário, lugar em que a psicologia se inscreve então. É ali que a psicologia melhor compactua com o capital, discriminando
o homem como organismo do mundo da produção e que, como vimos no início, pode até legitimar a geração de uma criança com o simples intuito de fazer dela
uma doadora de órgãos. Como resultado, a pesquisa realizada em 1981 nos mostrou em que medida a Psicologia aí se integra, e não devemos enganar-nos quanto
a isso, pois antes saber o que fazemos do que agir por ignorância. Talvez assim possamos nos localizar de alguma forma  hectópica em relação ao cientista
que “nada quer saber sobre as conseqüências do saber da ciência a nível da verdade” (LACAN, 15 de novembro de 1967) e nos perguntar em que medida a Psicologia
pode inscrever-se nas Ciências Humanas. Expressão, aliás, paradoxal, se seguirmos nosso raciocínio, na medida em que ele aponta uma contradição nos termos:
na ciência não há lugar para o humano. A Psicologia entrou no século XX como precioso instrumento para instituir e legitimar o mercado de trabalho que
necessita de um excedente, conforme Marx. Eis, talvez, uma resposta para Canguilhem...
**
Na terapia nos movemos entre sensações, emoções, posturas, palavras, imagens, etc. Neste campo compomos cartografias junto com o cliente, tentativas de
dar voz aos afetos, dar novas formas ao mundo, falar dos temores secretos, dos desejos, das dores profundas, de explorar caminhos....

Criamos na terapia um espaço de intimidade, intimidade não no sentido de contato com o conhecido, familiar, mas um espaço singular de abertura protegida
pelo vínculo, onde podemos deixar vir o desconhecido em nós, o estranho, o novo.

O vínculo propicia um ambiente favorável para enfrentar as muitas adversidades, para suportar níveis altos de angústia e falta de sentido. O vínculo é um
dos elementos básicos do processo terapêutico.

O vínculo terapêutico é também um campo de experimentação de modos novos de vinculação, de diferenciações em relação aos padrões conhecidos e de confrontação
com os modos habituais.

Cartografar o território clínico nos permite encontrar algumas coordenadas para navegar com mais segurança em direção a processos mais consistentes de vida.
A função deste texto é explorar este território a partir da influência do pensamento formativo de Stanley Keleman. Problematizar alguns aspectos da dinâmica
somática do vínculo terapêutico, notadamente a instrumentalização das formas somáticas do terapeuta como recurso clínico.

(início da pág 108)

IDENTIFICAÇÃO, COMPLEMENTARIDADE E ALTERIDADE

Podemos observar quatro modos de percepção dos afetos da relação terapêutica que indicam os diferentes lugares ocupados pelos membros neste espaço dinâmico.

Vamos falar mais especificamente destes lugares a partir da perspectiva do terapeuta.

1 -  Eu sou o outro:

Os sentimentos do cliente  podem ser percebidos pelo terapeuta em si mesmo, num fenômeno de identificação.

Uma forma de compreender o cliente é saber se colocar em seu lugar. Sair de nossa posição de outro e compartilhar o olhar, ir junto. Buscar sentir o que
o cliente sente, pensar o que ele pensa, desejar e temer como ele. Assim, antes que ele fale algo, você já sentiu, numa identificação de formas somáticas
e experiências. Sentir o que o cliente sente nos permitir compartilhar a sua dor e compreender o seu mundo. Muitas vezes já estamos nesta sintonia e só
então nos percebemos nela a partir da dinâmica vincular. Em outros momentos podemos imitar o cliente, buscando nos aproximar de sua vivência, repetindo
voluntariamente posturas e formas somáticas, num modo ativo e rico de colocar-se em seu lugar e compreender o seu mundo.

O cliente pode também fazer o terapeuta se sentir como ele. Assim, por exemplo, um cliente está falando de situações onde se sentiu sem espaço, invadido,
e ao mesmo tempo fala ininterruptamente, não deixando muito espaço para o terapeuta intervir, limitando o espaço do terapeuta na sessão. O cliente faz,
de algum modo, com que o terapeuta se sinta sem espaço na sessão, invadido, como ele se sente.

2 -  Eu para o outro:

O terapeuta pode ocupar um lugar de complementaridade aos afetos (pág 109) do cliente, ocupando um lugar em sua dinâmica (do cliente).

Podemos perceber o modo do cliente em relação a nós e observar a nossa tendência de resposta de complementar o seu funcionamento.

Esta é uma experiência de complementaridade, matriz de aspectos importantes da dinâmica transferencial e que será mais desenvolvido adiante no texto.

3 -  O outro para mim:

O terapeuta pode perceber o que a situação despertou em si de conteúdos pessoais (do terapeuta), com o cliente ocupando um lugar na dinâmica do terapeuta.

O cliente pode ser o nosso outro. Podemos nos perceber paralisados, por exemplo, e explorando isto vemos o cliente ocupando um lugar em nosso teatro de
dores pessoais. Explorando as nossas reações, nossos esboços de respostas  frente a ele, podemos aprender sobre nós mesmos. E podemos compreender o cliente
a partir da nossa dor, o que pode nos permitir estar com ele de um outro modo. É a contraparte da complementaridade, agora a partir do processo formativo
do terapeuta.

4 -  Eu e o outro:

O cliente é vivido como o outro, dois mundos diferentes.

Percebendo o cliente “de fora” podemos apreender este “outro singular” por observações, descrições, um olhar mais diferenciado sobre a pessoa à nossa frente.
Na experiência da alteridade nos aproximamos do limite de apreensão do que é um definitivamente outro. Neste momento podem surgir experiências de estranhamento,
susto, distância, respeito e o início de um diálogo sujeito a sujeito, não mais sujeito - objeto.

Há assim um trânsito onde o terapeuta pode se sentir sendo o próprio cliente, sentir-se e ser o outro do cliente na relação, sentir que o cliente seja o
outro de si ou ainda viver a experiência da alteridade.

(pág 110) O vínculo terapêutico ocorre dentro de um continuum que vai da identificação à alteridade.

Transitamos entre estes diferentes lugares na terapia: sentir junto, ocupar lugares complementares, diferenciar-se destes lugares, viver a alteridade. Qualquer
uma destas posições esclarece elementos importantes do vínculo terapêutico. A sua discriminação e operacionalização é um dos recursos preciosos da terapia.

Em cada um destes modos de relação estamos envolvidos e organizados somaticamente de um modo diferente, o que implica em níveis diferentes de vínculo e
diferentes qualidades de presença.

O CORPO A CORPO DO VÍNCULO

A relação terapêutica é uma interação corpo a corpo. No sentido de que o cliente organiza um corpo frente ao terapeuta e este por sua vez responde com outro
corpo.

As posturas, tensões e modulações das formas somáticas explicitam a distribuição da excitação emocional nos corpos que estão em relação naquele momento,
naquele campo de afetos. Há um diálogo somático anterior ao diálogo verbal.

Um corpo ativa algo em outro corpo, um corpo convoca o outro corpo a interagir de um determinado modo, e este por sua vez responde a partir da sua realidade
somática, das suas camadas somáticas mais ativas, seu repertório de formas, suas experiências.

Os corpos dialogam numa linguagem que lhes é própria, uma linguagem de formas somáticas, camadas embriológicas, tônus de tecidos, toda uma fisicalidade
básica e constitutiva da vida afetiva.

Numa determinada situação, por exemplo, o terapeuta pode sentir seu corpo se arredondando, seus braços se ampliando como se fossem pegar o cliente no colo,
e observa neste momento que o cliente está organizado numa forma somática onde se faz pequeno, evocando no (pág 111) terapeuta esta forma cuidadora. Em
outra situação, por exemplo, o terapeuta sente seu corpo contraído, diminuído, inseguro e percebe que esta sensação advém de uma atitude do cliente, que
está com seu corpo inflado e com olhar e atitude de intimidação.

As formas somáticas e a excitação emocional do terapeuta explicitam o seu lugar no campo da relação, os modos de relação daquele cliente com o mundo e daquele
terapeuta com aquele cliente.

Esta experiência se torna bastante acessível quando o terapeuta experimenta o recurso de posturar volitivamente os efeitos do encontro sobre si, dando mais
nitidez às afetações e às atitudes organizadas no vínculo.

Com este recurso é possível acompanhar o diálogo infraverbal das formas somáticas, ajudando a explicitar os afetos, a dinâmica, a criar um mapa do território
que permite voltar a ele, orientar-se e influenciar os processos.

Assim, trazemos para o plano visível, consciente, o que se passa num plano de sensações, afetos, fluxos e nuances.
Neste campo, o terapeuta usa seu próprio corpo como referencial de orientação em relação ao que ocorre na terapia e na relação com o cliente. O corpo do
terapeuta pode ser visto como um dos palcos onde se desenvolve a sessão.

Daí a importância fundamental de uma boa discriminação do próprio corpo - sensações, propriocepções, afetos - para o terapeuta navegar bem no universo da
sessão.

O terapeuta é um intérprete de si mesmo, dos efeitos daquele encontro em sua subjetividade corporificada.

Quanto maior a capacidade do terapeuta em se permitir ser perpassado por fluxos afetivos na relação terapêutica, maiores as possibilidades de desdobramentos
do universo existencial dos clientes na terapia.

(pág 112) Há uma certa dança, um diálogo de corpos durante a sessão terapêutica e podemos pensar como podemos acompanhar esta dança, aprender esta linguagem
dançante, interativa e formativa e poder instrumentalizar esta dimensão do vínculo como um recurso para a clínica.

TRANSFERÊNCIA, PASSADO E FUTURO

Transferência e contratransferência são fenômenos do vínculo que fazem um grande sentido a partir do diálogo das formas somáticas.

A transferência é uma experiência de complementaridade na relação terapêutica. É um fenômeno de vinculação onde o modo de ser de alguém chama o co-participante
a ocupar um lugar complementar numa certa dinâmica.

Há um campo emocional criando os lugares a partir do encontro.
 Assim, por exemplo, um cliente pode evocar um pai no terapeuta. Os comportamentos, modo de falar e se mover do cliente evocam no corpo do terapeuta um
modo paternal. O terapeuta começa a se perceber com sentimentos e esboços motores de atitudes paternais.

Por um lado, isto poderia dizer do passado daquele cliente, da reativação de sua relação com o seu pai. A transferência, neste sentido, poderia ser pensada
como uma transposição de processos relacionais passados, uma transferência de tempo e lugar dos personagens de um drama.

Porém, mais do que isto, a transferência contém a história presentificada, ela é a reativação recorrente de modos e formas somáticas que se construíram
a partir da relação com um pai.
Mais do que chamar o pai, o que se ativa é a memória somática de um modo de existência, ou seja, uma forma somática.

Esta forma somática, este modo de existência, se criou a partir das experiências com um pai, determinando um modo de ser com uma certa configuração somática.
No vínculo com o terapeuta aparece a história (pág 113) que se presentifica nas formas somáticas.

O que se repete é uma dinâmica vincular, um modo de existência, um repertório determinado de formas somáticas, muitas vezes fixados e  paralisados pelas
experiência que a pessoa não pôde assimilar em sua vida. Estas formas somáticas cristalizadas interrompem o processo formativo e levam uma pessoa a responder
às situações diversas com um repertório limitado de comportamentos, com modos reiterantes de sentir, pensar, perceber e agir.

A repetição destes modos somático-existenciais na terapia, por outro lado, abre a possibilidade de confronto, consciência e diferenciações dentro do processo
de vida. Permite a desorganização de comportamentos limitantes e a emergência de novas formas somáticas a partir do vínculo terapêutico. Uma oportunidade
de sair de um labirinto armado no passado, que paralisa o andamento do futuro.

AS VERTENTES DE FUTURO

O vínculo contém também uma função formativa, de gestação de novos territórios existenciais.

Um cliente, por exemplo, suscita no terapeuta coisas próximas do lugar de um irmão mais velho, mais formado, que possa ajudá-lo a entrar na vida adulta
com mais recursos.

Cabe ao terapeuta poder ocupar este lugar neste campo de gestação de um modo de existência, permitindo a passagem de um momento ao outro do processo formativo
do cliente, assim como cabe, ir desocupando este lugar em outro momento, quando este modo já não favorece mais o processo do cliente.

No vínculo terapêutico o terapeuta vai ocupar diferentes lugares para o cliente, de acordo com o que esteja em  evidência no processo formativo do cliente
naquele momento.

A partir da percepção dos afetos, atitudes e lugares da relação, o (pág 114) terapeuta pode reconhecer os tipos de vínculo que o cliente estabelece, o que
ele formativamente está precisando.

O vínculo tem assim uma função formativa, de ajudar na desconstrução de formas desatualizadas e na construção de formas corporais contemporâneas.

No processo vincular há uma necessidade daquele lugar do outro, daquele funcionamento do outro para que o processo do cliente possa ser gestado e maturar.
Acompanhar ao longo da terapia o processo vincular fornece uma referência importante das várias fases do processo terapêutico e do processo de vida do
cliente.

O vínculo terapêutico é um laboratório onde novas formas podem emergir, diferenciações dos padrões habituais de comportamento, um lugar de experimentação
e maturação vincular.

O vínculo, portanto, pode tanto apresentar uma reedição de uma dinâmica relacional cristalizada quanto criar uma dinâmica necessária naquele momento da
vida da pessoa. O vínculo é assim tanto uma derivação do passado quanto uma vertente de futuro. Este processo é movido pelo impulso formativo, a força
de criação de novas formas em direção à atualização do passado e à composição do futuro.

O CAMPO GESTATIVO VINCULAR

Trabalhando com o cliente, podemos ir aprendendo sobre o seu funcionamento, seu modo de ser habitual e o quanto isto restringe a sua vida. Observamos suas
modalidades de relacionamento com o mundo, seu lugar na teia de relações pessoais, seus modos de dar e receber, mandar e obedecer, pedir e tomar, agir
e esperar, etc. Podemos ajudar a esclarecer estes modos e estar juntos para ampliar os seus limites e criar novos caminhos de vida.

É necessário discriminar as sutilezas do vínculo, as variações que permitem identificar que um cliente está buscando aceitação, outro (pág 115) orientação,
outro confronto e outro ainda, testando confiança. A cada momento do vínculo há questões diferentes sendo maturadas.

O terapeuta ocupa um lugar no mundo do cliente e este ocupa um lugar no mundo do terapeuta. Há um encontro do processo formativo do cliente com o processo
formativo do terapeuta, criando um processo formativo daquele vínculo, numa inter-relação naquele espaço clínico.

Um comentário:

Fernanda!!!! disse...

Oiees fia.
Adorei este texto falando sobre a psicologia.
Não sabia de nada disso, e adorei aprender com esta tua postagem.
Um beijão.
Fer.